08
jun
11

Quem somos os tradutores de medicina?

Um post rapidinho sobre quem traduz medicina atualmente. A pesquisa informal em inglês foi retirada daqui e a apresentação inteira vale ser lida.

– A maioria de nós tem formação linguística e não médica (7:1), e quando tem formação médica ela é bem variada (enfermagem, biomedicina, farmacêutica)

– Como em outros segmentos da tradução, as mulheres são maioria (6:1)

– A maioria trabalha de forma autônoma e em tempo integral

– Em muitos casos o cônjuge atua na área da saúde

Eu me encaixo em quase todos os itens, exceto pela minha formação, que não é nem linguística nem médica…

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04
jun
11

A utilidade dos glossários

O Renato fez um comentário sobre o post anterior, e aproveito o gancho para dar minha opinião sobre glossários em geral na resposta que comecei a escrever para ele. Não esgotarei o tema, porque já esgotei o tempo que tenho escrevendo este post.

Bem, vamos lá, vou fazer um assopra-morde-assopra:

Para traduzir textos da área da saúde, o fato de você ser acadêmico de medicina é ótimo, e te dá uma enorme vantagem sobre as pessoas que nunca tiveram contato com “o outro lado” da medicina, o lado do profissional de saúde. No milênio passado também fui acadêmica de medicina por um breve período.

Quanto aos glossários, minha opinião é que eles são ótimos quando são confiáveis, mas a grande maioria não é. Não porque o autor/compilador não pesquisou ou errou, mas porque um glossário completo de medicina (e de qualquer outra área, por sinal) é algo impossível de se conseguir. Um mesmo termo pode ser traduzido de modos diferentes dependendo do tema, ou do público-alvo. Além disso, a medicina está sempre evoluindo e esses glossários precisariam evoluir também para dar conta desses desdobramentos.
Uma outra coisa que acho dos glossários é que não podemos depender só deles para traduzir, nem dos dicionários bilíngues. É preciso entender o contexto em que o termo aparece, e muitas vezes uso dicionários monolíngues ou a internet para ***entender*** o termo, depois procurar sua tradução. Tenho um dicionário médico bilíngue de papel, o Stedman, que em alguns projetos confesso que é meu melhor amigo, mas só o comprei já com vários anos de experiência, por causa da prova da American Translators Association, em que não é possível consultar a internet.

Resumindo, acho louvável o seu esforço sim, e gostaria de ser avisada quando você concluí-lo, por favor. Você pode trocar experiências com um colega nosso tradutor jurídico, que há pouco tempo publicou um dicionário jurídico muito elogiado pelos colegas que trabalham na área. O nome dele é Marcílio Moreira Castro

Só lembre que um glossário é ***mais uma*** ferramenta do arsenal de qualquer tradutor.

Antes que eu me esqueça, o Renato perguntou sobre a repercussão potencial de um glossário médico. Sinceramente, você não vai ficar rico com isso. Somos poucos os tradutores especializados em medicina, e ainda que tradutores de outras áreas comprem o glossário, somos poucos os tradutores. No entanto, se o seu glossário for bom e útil, como o do Ivo Korytowsky, você ganha respeito dos seus pares e provavelmente ganhará também clientes. Mas lembre-se que o contrário vale também: se o glossário não for bom…

30
abr
11

Abreviaturas, siglas, hieróglifos e trava-línguas

No início da semana entreguei um dos arquivos de um projeto ainda em andamento. O arquivo tinha mais de 40 mil palavras. Até aí, ótimo, trabalho é sempre bom. Mas esse foi o pior arquivo com o qual já trabalhei até hoje, desde 1996, quando fiz minha primeira tradução. Chegou a desbancar o antigo primeiro lugar, um contrato sobre mineração com escritura da propriedade e tudo mais, que fiz logo no início de carreira, crua, inocente e sem noção, quando anunciava no jornal e pegava o que aparecesse.

Por que o arquivo era um pesadelo? No final das contas, porque parecia mais um glossário do que qualquer outra coisa. Eram 15 mil segmentos de: “RO Art Pel/L Ex w/wo”, ou de “Neph Uret Stn-NU Rmv/Rpl Bil(“ ou ainda “US-Gd Ctrl Ven Cath Plc NTun(T”. Assim mesmo, com umas aspas sem fechar, uma loucura. Das 40 mil, entreguei quase 2 mil sem solução, à espera de respostas do cliente ao meu pedido para que decifrem o que está escrito no original para que eu possa traduzir.

Esse serviço me deu vontade de falar aqui não sobre o fato de que o cliente quis me vender gato por lebre, ou seja, aplicar a tarifa comum a um arquivo absurdamente incomum. Isso a gente tem como evitar, sabendo se posicionar com o cliente. O que é impossível de evitar é encontrar esses absurdos no texto (texto?). Reuni aqui algumas classes que considero interligadas: abreviaturas, siglas, hieróglifos e trava-línguas. Cada uma mereceria um post separado, mas como sempre que prometo escrever o próximo acabo não escrevendo, vou começar aqui e algum dia pode ser que retome o assunto.

Para mim, existe uma tênue diferença entre abreviaturas e o que chamo aqui de hieróglifos. As abreviaturas são as inteligíveis, que fazem sentido ou, no mínimo, são consagradas mesmo que não façam sentido para mim. Eu tive que me policiar por um tempo para nunca traduzir Rx num texto em inglês como raio X, porque Rx quer dizer “prescription”. Similarmente, Tx = tratamento, Dx = diagnóstico. Lindo, né? Nos exemplos acima, posso desvendar parte do que está escrito, o resto é hieróglifo e para eles preciso da pedra de Rosetta (o cliente final). Por exemplo: “L Ex” deve ser left extremity; e “US-Gd Ctrl Ven Cath Plc” deve ser Ultrasound-guided Central Venous Catheter Placement. É ou não é pra chorar? O pior é quando a mesma abreviatura pode querer dizer mais de uma coisa. Nesse arquivo eu encontrei Lymph em vários segmentos. Podia ser linfa, linfoma ou linfócitos, entre outros. Avisei ao cliente e deixei tudo ambíguo traduzido como Linf.

As siglas podem servir só para economia de espaço, como as abreviaturas, ou podem servir também para simplificar (EUA, por exemplo). As que querem só economizar espaço sempre aparecem em resumos de artigos científicos em que o autor é prolixo e o periódico exige o máximo de 300 palavras. Em geral, os guias de estilo ditam que a primeira ocorrência deve aparecer por extenso com a sigla em parênteses e as seguintes podem ser só sigla. Seria ótimo se todos fizessem isso. Mas quando encontramos YFV pela frente sem explicação o que a gente pensa mesmo é WTF. Em algum ponto do texto a gente acaba descobrindo que YFV = yellow fever vaccination. Ah, tá, podia ter explicado…

Por fim, uma classificação que entra aqui porque também é inevitável na vida do tradutor, mas é ainda mais relevante para os intérpretes, os trava-línguas. Imagine-se na situação em que você vai interpretar um evento chamado Idiopathic Lymphangioleiomyomatosis, em que vão falar sobre Doxycycline, luteinizing hormone, chylothorax etc. e tal. Não se enganem, vai acontecer. E eu não misturei ao acaso termo que são difíceis de pronunciar. Abram a página da Wikipedia referente a linfangioleiomiomatose, estão todos lá… Essa categoria dos trava-língua entrou aqui depois que o post estava pronto, por causa de um assunto que surgiu no meu twitter, e que está sendo conversado numa lista no ProZ. Lá encontrei esse vídeo, muito engraçado sobre outro problema para qualquer tradutor/intérprete: pronunciar os nomes das pessoas. E no final tem uma sigla, mas não vou estragar a surpresa.

14
abr
11

Imagem não, imagem não

Esta semana estou traduzindo um protocolo de pesquisa clínica e aconteceu uma coisa que volta e meia me pego fazendo. Ao fazer pesquisas terminológicas na internet, dependendo do que estou pesquisando, antes de clicar em “Pesquisar” começo a recitar um mantra mental: imagem não, imagem não, imagem não.
Há três principais categorias de pesquisa que desencadeiam meu mantra.

1) Escatologia. Os médicos conversam entre si muito casualmente sobre escarro, fezes amolecidas com sangue oculto, odores, vômitos, secreções de diversas cores saindo de vários lugares do corpo.
2) Açougue. Adoro protocolos de cirurgia ou instruções de uso de cateteres com ilustrações desenhadas. Corte aqui, aparafuse ali, insira acolá, avance o cateter, feche o tecido em camadas.
3) Pornografia. Alguns estudos clínicos nos quais trabalhei tinham como população-alvo pessoas com risco de exposição sexual. Há um tempo precisei procurar como era o nome “formal” para o sexo que chamávamos de ativo e passivo (vaginal ou anal insertivo/receptivo). Nesta categoria a gente também lê coisas muito interessantes. Um texto que traduzi trazia uma lista de perguntas a serem respondidas por pessoas que nasceram mulheres ou nasceram homens, ou seja, pertinentes ao sexo anatômico ao nascer e não ao gênero.

Mas eu, Juliana, tenho uma confissão a fazer: tenho aflição de algumas pesquisas dermatológicas e oftalmológicas que faço. Tenho um bloqueio danado com coisas nos olhos, não consigo pingar colírio nos meus (nos dos filhos já aprendi, meu filho é campeão em acordar com olho inchado) e fico com os olhos lacrimejando só de ver alguém com cisco no olho. Adivinhem o que chegou de trabalho esta semana? Um enorme e prolixo protocolo de pesquisa clínica oftalmológico! Nessas horas, além do mantra, a única coisa que sempre repito é: ainda bem que saí da faculdade de medicina!

05
abr
11

Do que cabe na vida em 6 meses

Recentemente, tenho ouvido cada vez mais dos nossos colegas reclamações sobre a postura excessivamente marketeira de alguns outros colegas nossos. É gente que não consegue falar de nada além de si mesmo, que não interage se não for para fazer um “jabá”. Criaram até uma premiação o Turíbulo de ouro. Tem também aquela agência de tradução que faz uma contrapropaganda, enviando e-mails a todos os contatos (inclusive tradutores) com promoções do tipo “leve 3 e pague 2 traduções”. É um tiro pela culatra.
Enquanto isso, estou sem vir aqui nem fazer comentários no twitter há 6 meses. Mal e porcamente acompanho o janelão, às vezes o twitter. E nunca trabalhei tanto como nos últimos 6 meses. Foi Natal, virada do ano, carnaval, tudo trabalhando, para isso precisei cortar algumas coisas da minha vida.
É que às vezes, a gente precisa deixar a vida da gente tomar conta. Se eu ainda por cima me forçasse a escrever aqui, me manter atualizada, ler todos os artigos, blogs, newsletters, listas de discussão etc. e tal, o que seria da minha vida? Minha vida NÃO é apenas trabalho. A parte mais importante dela está aqui, nos bastidores. Basta dizer que preteri o blog, mas viajei com a minha família, fiz o peru de Natal, minha sogra operou e passei algumas tardes com ela no hospital, mantenho uma rotina saudável de namorar meu marido sempre que posso, acompanho o dever de casa dos meus filhos, levo pra natação, equitação, futebol, violão, balé, inglês, francês (a prole é grande, pra quem não sabe), converso com a minha adolescente que vai prestar vestibular este ano. Em compensação, não ia à manicure desde janeiro. Estou tendo o prazer de digitar essas linhas com as unhas coloridas pulando no teclado. E vou tentar o meio termo entre o auto-incensamento e o desaparecimento completo, vou praticar pequenos atos de rebeldia na rotina insana. A ver se consigo.

22
set
10

Para ser tradutor de medicina (Parte 1)

Já conheci muitos tradutores profissionais que não traduzem medicina, assim como eu fujo do jurídico, do petróleo. Apesar de a tradução médica ser mais uma entre tantas possibilidades de especialização do tradutor, minha impressão é que muitas pessoas que entram na profissão já entram com medo de encarar a tradução médica. Comigo nunca foi assim, mas eu sempre me interessei pela área e cheguei até a cursar Medicina na faculdade por um ano. Para preparar minha palestra no ProZ, tive que parar e pensar um pouco sobre o que distingue a tradução médica das outras áreas da tradução. Nos próximos dias pretendo desmembrar a minha apresentação e colocar aqui alguns tópicos que surgiram na minha “investigação”.

Muitas das características que aponto como essenciais para o tradutor de medicina valem para qualquer área da tradução, por exemplo, a compreensão do texto de partida, do que vai ser traduzido. Isso é meio óbvio, precisamos entender o que lemos, mas diferente de traduzir, digamos, instruções para origami, na medicina dificilmente poderemos acompanhar na prática o que estamos traduzindo. Precisamos entender como colocar uma sonda, posicionar um transdutor, fazer avançar um cateter, mas por regra nenhum de nós vai executar uma dessas ações. Hoje em dia é muito mais fácil traduzir esse tipo de material completamente estranho ao cotidiano não-profissional do tradutor por causa do acesso a todo o tipo de material. Mais de uma vez ao traduzir instruções de algum dispositivo médico recebi vídeos do procedimento no qual esse equipamento é usado. Para os de estômago fraco, calma. Muitas vezes são vídeos de animação, que ajudam muito a compreensão do material com o qual estamos trabalhando.

Uma outra característica importante é que o tradutor médico não pode ter pudores. Eu recebo muitas traduções sobre doenças sexualmente transmissíveis e de vez em quando preciso pesquisar termos que podem incomodar aos mais pudicos. Isso vale não apenas para os termos relacionados ao sexo, mas também aos termos escatológicos. No seu texto pode aparecer algo do tipo “marque como estavam suas fezes esta semana”, seguido de diversas descrições possíveis sobre aspecto, odor etc. Vocês entenderam.

06
ago
10

A conferência do ProZ e a pseudossolidão do tradutor

Fiquei um pouco desaparecida do blog por causa dos preparativos para a palestra que dei no ProZ, e quando cheguei já engatei a quinta marcha para atender alguns clientes apressados (ainda bem que eles existem, viva a taxa de urgência!).

A experiência de ver os colegas, rever os amigos-colegas e conhecer gente nova é ótima. Saí da conferência revigorada, tanto pelo teor das palestras, como por me perceber parte de um grupo de gente de carne e osso, não um grupo de arrobados e nomes na minha caixa de entrada. Isso faz a maior diferença no meu dia-a-dia. Desde que comecei a frequentar eventos de tradução, não trabalho mais sozinha. Eu e um grupo de colegas viramos até objeto de estudo do marido de uma tradutora, porque transformamos o skype em um escritório virtual, uma sala de bate-papo com 19 tradutores, em vários fusos horários. Lá estreitamos laços, trocamos ideias e receitas, pedimos ajuda para achar um termo ou para energias positivas (só mais vinte laudas, vamos lá!), dividimos contatos e experiências. Isso supre, pra mim, um vazio que muitas vezes enfrentava no cotidiano do trabalho, a falta de companhia. Não sei mais o que é isso, e passei a gostar ainda mais do meu trabalho por causa desse grupo, do twitter, das listas de tradução, das comunidades de tradutores no orkut.

Mas, vou voltar ao assunto ProZ, porque tive até que mudar o título do post por causa do parágrafo aí em cima. A conferência foi muito bem organizada, as palestras foram excelentes e de alto nível, mesmo as voltadas para iniciantes. Minha opinião é que este ano houve muito menos espaço para a teoria e o estudo formal da tradução e mais aos aspectos práticos de um tradutor profissional. Na minha opinião isso foi ótimo, porque não tenho formação em tradução e, apesar de gostar de ler sobre o assunto, considero mais produtivo aprender sobre coisas que realmente causarão impacto sobre o meu trabalho. Acho bom também para estudantes de tradução, porque possibilita que eles vislumbrem como a profissão pode ser diferente da teoria e dá uma ideia dos pepinos que o tradutor profissional precisa descascar quase todos os dias. Recomendo a todos: procurem seus colegas na internet e façam o possível para conhecê-los ao vivo, porque isso vale a pena!

A seguir, alguns links sobre o evento:
Para quem não conhece o ProZ: www.proz.com
As apresentações do congresso: http://www.proz.com/conference/151?page=presentations
Para ver como foi a cobertura do evento via twitter (com fotos, comentários e links): http://twitter.com/#search?q=%23proz