22
set
10

Para ser tradutor de medicina (Parte 1)

Já conheci muitos tradutores profissionais que não traduzem medicina, assim como eu fujo do jurídico, do petróleo. Apesar de a tradução médica ser mais uma entre tantas possibilidades de especialização do tradutor, minha impressão é que muitas pessoas que entram na profissão já entram com medo de encarar a tradução médica. Comigo nunca foi assim, mas eu sempre me interessei pela área e cheguei até a cursar Medicina na faculdade por um ano. Para preparar minha palestra no ProZ, tive que parar e pensar um pouco sobre o que distingue a tradução médica das outras áreas da tradução. Nos próximos dias pretendo desmembrar a minha apresentação e colocar aqui alguns tópicos que surgiram na minha “investigação”.

Muitas das características que aponto como essenciais para o tradutor de medicina valem para qualquer área da tradução, por exemplo, a compreensão do texto de partida, do que vai ser traduzido. Isso é meio óbvio, precisamos entender o que lemos, mas diferente de traduzir, digamos, instruções para origami, na medicina dificilmente poderemos acompanhar na prática o que estamos traduzindo. Precisamos entender como colocar uma sonda, posicionar um transdutor, fazer avançar um cateter, mas por regra nenhum de nós vai executar uma dessas ações. Hoje em dia é muito mais fácil traduzir esse tipo de material completamente estranho ao cotidiano não-profissional do tradutor por causa do acesso a todo o tipo de material. Mais de uma vez ao traduzir instruções de algum dispositivo médico recebi vídeos do procedimento no qual esse equipamento é usado. Para os de estômago fraco, calma. Muitas vezes são vídeos de animação, que ajudam muito a compreensão do material com o qual estamos trabalhando.

Uma outra característica importante é que o tradutor médico não pode ter pudores. Eu recebo muitas traduções sobre doenças sexualmente transmissíveis e de vez em quando preciso pesquisar termos que podem incomodar aos mais pudicos. Isso vale não apenas para os termos relacionados ao sexo, mas também aos termos escatológicos. No seu texto pode aparecer algo do tipo “marque como estavam suas fezes esta semana”, seguido de diversas descrições possíveis sobre aspecto, odor etc. Vocês entenderam.

Anúncios

4 Responses to “Para ser tradutor de medicina (Parte 1)”


  1. 22 de setembro de 2010 às 11:41 am

    Muito bom o post. Ainda tem o probleminha da visualização do material a ser traduzido, para um melhor entendimento. Muitas vezes aparecem imagens de embrulhar o estômago até dos mais fortes. Por isso tiro o chapéu para quem, como você, se especializa neste assunto. Parabéns!

  2. 2 Marise Zappa
    23 de setembro de 2010 às 12:45 am

    Juliana,
    Como também traduzo Medicina, uma amiga me mandou o link do seu blog e achei muito interessante o que você escreveu.
    Se quiser conhecer meu blog acesse http://www.tradutoradeartigos.blogspot.com
    Saludos y felicitaciones,
    Marise Zappa

  3. 28 de setembro de 2010 às 12:14 pm

    Oi, Juliana

    Mais uma vez, um ótimo post. Parabéns!
    Fico feliz por ver um blog de tradução mais voltado para a tradução médica. Sempre senti falta de dividir com meus “pares” algumas questões relacionadas ao nosso trabalho, e aqui tenho a chance de ter uma leitura mais próxima do que eu faço.
    Eu também “me achei” na tradução médica 15 anos atrás, meio por acaso, mas foi algo que abracei com paixão. Passei a estudar como louca, e em pouco tempo a minha estante que antes abrigava Drummond e Joyce foi ficando repleta de tijolões de fisiologia, anatomia e medicina geral.
    Poucos entendem essa paixão, o real prazer em ler no final da noite um capítulo de dermato para dar uma ‘clareada’ no pensamento antes de começar o livro novo no dia seguinte. Pouca gente talvez se dê conta do quanto um tradutor da área de saúde estuda para fazer um bom trabalho.
    Quanto às ‘imagens’ meio chocantes, aqui tenho o hábito de colocar um envelope pardo grosso em cima do texto quando está no cavalete ao lado do computador. Ninguém aguenta ver aquelas coisas com as quais, hoje, eu já me acostumei. E, como você, curto as ‘apresentações’ de procedimentos. Pelo fato de ter irmá médica, com prática em hospitais públicos, é muito comum passarmos um bom tempo conversando sobre isso. Peço instruções, quero ‘ver’ como faz, quero ver os materiais. É muito gostoso.
    (Vai ver sou uma médica frustrada e não sei!)
    Obrigada por compartilhar suas opiniões e sua experiência na área conosco. É sempre muito bom vir aqui!
    Beijão
    Min

  4. 29 de setembro de 2010 às 5:07 pm

    Olá, Juliana,
    Foi ótima sua apresentação no Encontro de TPICs! Pena que o tempo era curto, mas gostei muito das considerações que você fez sobre as particularidades desse tipo de tradução.
    Bjs,
    Marise


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


Anúncios

%d blogueiros gostam disto: