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Abreviaturas, siglas, hieróglifos e trava-línguas

No início da semana entreguei um dos arquivos de um projeto ainda em andamento. O arquivo tinha mais de 40 mil palavras. Até aí, ótimo, trabalho é sempre bom. Mas esse foi o pior arquivo com o qual já trabalhei até hoje, desde 1996, quando fiz minha primeira tradução. Chegou a desbancar o antigo primeiro lugar, um contrato sobre mineração com escritura da propriedade e tudo mais, que fiz logo no início de carreira, crua, inocente e sem noção, quando anunciava no jornal e pegava o que aparecesse.

Por que o arquivo era um pesadelo? No final das contas, porque parecia mais um glossário do que qualquer outra coisa. Eram 15 mil segmentos de: “RO Art Pel/L Ex w/wo”, ou de “Neph Uret Stn-NU Rmv/Rpl Bil(“ ou ainda “US-Gd Ctrl Ven Cath Plc NTun(T”. Assim mesmo, com umas aspas sem fechar, uma loucura. Das 40 mil, entreguei quase 2 mil sem solução, à espera de respostas do cliente ao meu pedido para que decifrem o que está escrito no original para que eu possa traduzir.

Esse serviço me deu vontade de falar aqui não sobre o fato de que o cliente quis me vender gato por lebre, ou seja, aplicar a tarifa comum a um arquivo absurdamente incomum. Isso a gente tem como evitar, sabendo se posicionar com o cliente. O que é impossível de evitar é encontrar esses absurdos no texto (texto?). Reuni aqui algumas classes que considero interligadas: abreviaturas, siglas, hieróglifos e trava-línguas. Cada uma mereceria um post separado, mas como sempre que prometo escrever o próximo acabo não escrevendo, vou começar aqui e algum dia pode ser que retome o assunto.

Para mim, existe uma tênue diferença entre abreviaturas e o que chamo aqui de hieróglifos. As abreviaturas são as inteligíveis, que fazem sentido ou, no mínimo, são consagradas mesmo que não façam sentido para mim. Eu tive que me policiar por um tempo para nunca traduzir Rx num texto em inglês como raio X, porque Rx quer dizer “prescription”. Similarmente, Tx = tratamento, Dx = diagnóstico. Lindo, né? Nos exemplos acima, posso desvendar parte do que está escrito, o resto é hieróglifo e para eles preciso da pedra de Rosetta (o cliente final). Por exemplo: “L Ex” deve ser left extremity; e “US-Gd Ctrl Ven Cath Plc” deve ser Ultrasound-guided Central Venous Catheter Placement. É ou não é pra chorar? O pior é quando a mesma abreviatura pode querer dizer mais de uma coisa. Nesse arquivo eu encontrei Lymph em vários segmentos. Podia ser linfa, linfoma ou linfócitos, entre outros. Avisei ao cliente e deixei tudo ambíguo traduzido como Linf.

As siglas podem servir só para economia de espaço, como as abreviaturas, ou podem servir também para simplificar (EUA, por exemplo). As que querem só economizar espaço sempre aparecem em resumos de artigos científicos em que o autor é prolixo e o periódico exige o máximo de 300 palavras. Em geral, os guias de estilo ditam que a primeira ocorrência deve aparecer por extenso com a sigla em parênteses e as seguintes podem ser só sigla. Seria ótimo se todos fizessem isso. Mas quando encontramos YFV pela frente sem explicação o que a gente pensa mesmo é WTF. Em algum ponto do texto a gente acaba descobrindo que YFV = yellow fever vaccination. Ah, tá, podia ter explicado…

Por fim, uma classificação que entra aqui porque também é inevitável na vida do tradutor, mas é ainda mais relevante para os intérpretes, os trava-línguas. Imagine-se na situação em que você vai interpretar um evento chamado Idiopathic Lymphangioleiomyomatosis, em que vão falar sobre Doxycycline, luteinizing hormone, chylothorax etc. e tal. Não se enganem, vai acontecer. E eu não misturei ao acaso termo que são difíceis de pronunciar. Abram a página da Wikipedia referente a linfangioleiomiomatose, estão todos lá… Essa categoria dos trava-língua entrou aqui depois que o post estava pronto, por causa de um assunto que surgiu no meu twitter, e que está sendo conversado numa lista no ProZ. Lá encontrei esse vídeo, muito engraçado sobre outro problema para qualquer tradutor/intérprete: pronunciar os nomes das pessoas. E no final tem uma sigla, mas não vou estragar a surpresa.

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2 Responses to “Abreviaturas, siglas, hieróglifos e trava-línguas”


  1. 1 Renato Souza
    15 de maio de 2011 às 2:52 pm

    Cara Juliana:
    Não a conheço, mas, lendo seu texto sobre os “hieróglifos” na tradução, decidi tentar começar uma sondagem que normalmente faria mais adiante.
    Explico: estou preparando um glossário de termos médicos, com a intenção/pretensão de que seja bastante abrangente (mais de 20 mil palavras). Ao ler sobre sua dificuldade com as abreviaturas e siglas da medicina, no caso, fiquei otimista com relação a um bom impacto da obra, porque estou incluindo também esses “hieróglifos” no meu futuro glossário.
    Assim, peço a você a gentileza de dar sua opinião a respeito do grau de utilidade de uma obra dessa natureza.
    Sou acadêmico de Medicina e tradutor de artigos científicos (uma das atividades possíveis de se fazer durante o curso, por ser freelance) e sempre me bati muto atrás de bons glossários ou dicionários bilingues. Isso deve ter acontecido com você também, imagino. Onde achar boas e seguras fontes? Talvez o Dorland em termos de material em papel, e alguns sites, algumas revistas indexadas com resumo/abstract bem-feitos (e o abstract não chutado, como muitos são, porque o autor resolveu fazê-lo ele mesmo ao invés de contratar um de nós!).
    Trabalhei como tradutor para uma revista sobre cirurgia geral — imagine o trabalho para achar e conferir, por exemplo, nomes de tipos de sutura, mesmo eu sendo estudante na área…
    Enfim, já me alonguei bastante. Gostaria de saber o que você acha da repercussão de uma obra como a que estou preparando (sem copiar/colar de obras já existentes), se seria mesmo útil e oportuna, enfim, sua opinião.
    Grato!
    Renato Nadal Souza


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